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O BUDISMO
E A CONQUISTA DO SOFRIMENTO

“Que todos os que têm vida possam se libertar do sofrimento."
Gautama Buddha

BUDDHISM

Diferente das outras religiões globais, o Budismo coloca o sofrimento como o centro, ou o coração de nosso mundo. De fato, segundo o Budismo, existência é sofrimento (dukkha). A principal pergunta que Gautama (566 a.C. – 480 a.C.), o fundador tradicional do Budismo, se propôs a responder foi: “Por que a dor e o sofrimento existem?”.

O Budismo ensina a ter compaixão para com todos os seres sencientes. Por outro lado, o Cristianismo e sua ramificação secular, a ciência ocidental, aderem a uma forma bastante não-darwiniana de excepcionalismo humano. Segundo o Livro do Gênesis, Deus colocou os animais no mundo apenas para que servissem ao Homem, o qual existe para servir a Deus.

Acredita-se que desde o início do século XXI existam cerca de 300 milhões de budistas em todo o mundo. Os ensinamentos budistas mais fundamentais são as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo.

AS QUATRO NOBRES VERDADES:

  1. Tudo é sofrimento (dukkha).
  2. O sofrimento é causado pelo desejo ligado a coisas impermanentes.
  3. 3. Se alguém puder eliminar o desejo, será capaz de eliminar o sofrimento.
  4. The Noble Eight-fold Path can eliminate desire. O Nobre Caminho Óctuplo é capaz de eliminar o desejo. Os extremos da auto-indulgência (hedonismo) e da automortificação devem ser evitados.
O NOBRE CAMINHO ÓCTUPLO:
  1. Compreensão Correta.
    A real compreensão das Quatro Nobres Verdades.
  2. Pensamento Correto.
    A aspiração correta é o real desejo de libertar a si mesmo da ligação, ignorância e ódio.
    [Esses dois primeiros são conhecidos como prajña, ou sabedoria.]
  3. Fala Correta.
    A fala correta diz respeito a se abster de mentir, falar em vão, ou usar palavras ásperas ou caluniosas.
  4. Ação Correta.
    A ação correta diz respeito a se abster de comportamentos violentos, tais como matar, roubar, ou praticar sexo descuidado.
  5. Meio de Vida Correto.
    O meio de vida correto diz respeito a viver de maneira a evitar a desonestidade e ferir os outros, incluindo animais. [Os três acima são conhecidos como shila, ou moralidade.]
  6. Esforço Correto.
    O esforço correto diz respeito a tentar controlar os próprios estados mentais: as más qualidades deveriam ser abandonadas e impedidas de surgirem novamente; as boas qualidades promulgadas e estimuladas.
  7. Atenção Correta. A atenção correta diz respeito a dirigir a atenção ao próprio corpo, aos próprios sentimentos, pensamentos e à própria consciência, de maneira a superar o desejo, o ódio e a ignorância.
  8. Concentração Correta.
    A verdadeira compreensão acerca da imperfeição, impermanência e não-separatividade.concentração correta diz respeito a meditar de forma a alcançar gradualmente a verdadeira compreensão acerca da imperfeição, impermanência e não-separatividade.
A tradição budista do Theravada ensina que todos devem buscar a salvação individualmente, por meio de seus próprios esforços. Para atingir o nirvana, é preciso renunciar aos desejos mundanos e viver uma vida monástica. A tradição Mahayana ensina que a salvação se dá pela graça dos bodisatvas. Os bodisatvas protelam a sua própria iluminação para ajudar os outros, permitindo assim que muitos outros seres vivos possam alcançar a salvação.

O universalismo budista é melhor representado pela tradição Mahayana, a qual abrange o bem-estar de toda a vida senciente.

O termo nirvana significa, em sentido literal, o “sopro” da existência – algo que não é completamente claro. O nirvana não é um lugar como o paraíso, mas sim um estado eterno do ser. É o estado no qual a lei do carma e o ciclo de renascimento chegam ao seu fim – embora as concepções budistas da (não) identidade pessoal tornem essas noções problemáticas. O nirvana é o fim do sofrimento; um estado no qual não existem desejos, e a consciência individual cessa. Alcançar o nirvana é abrir mão do apego, do ódio e da ignorância. A sua realização implica a plena aceitação da imperfeição, impermanência e interconectividade. Às vezes, a palavra “nirvana” é utilizada tanto para se referir ao paraíso budista quanto ao nada absoluto, embora a maioria dos budistas não compreenda o termo dessa última forma.

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UTILITARISMO

Os utilitaristas compartilham com os budistas a atenção em relação ao sofrimento. Mas apenas utilitaristas “negativos” identificam a minimização do sofrimento como o único objetivo moral da vida. Por outro lado, utilitaristas “positivos” consideram que a maximização da felicidade não é moralmente menos importante do que minimização da dor.

Uma das variações radicais do utilitarismo é o abolicionismo. Abolicionistas defendem que as biotecnologias deveriam ser utilizadas em prol da eliminação completa do sofrimento – embora nem todos os abolicionistas sejam utilitaristas. Dada a acelerada revolução das biotecnologias, o Projeto Abolicionista é a consequência lógica de uma ética utilitarista. Mesmo assim, a criação de um verdadeiro mundo livre de crueldade requer uma solução tecnológica desconcertantemente ambiciosa. Qualquer iniciativa entre espécies dessa magnitude apresenta-se como estando além de nossas capacidades tecnológicas atuais. Mesmo assim, pode-se predizer uma espécie de “Engenharia do Paraíso” na era porvir dos supercomputadores quânticos combinados com a nanorobótica. Além disso, a carne artificial geneticamente modificada será capaz de propagar gradualmente o veganismo global de um modo bem mais eficiente do que as súplicas em nome da compaixão solitária.

As colocações acima podem soar acadêmicas. A maior parte das pessoas não defende o utilitarismo como um código moral. Além do mais, o termo “utilitarista” é em si mesmo pedestre, pois não transmite nenhum tipo de urgência moral. Contudo, uma ética utilitarista rudimentar está muito difundida na sociedade secular contemporânea. Mesmo anti-utilitaristas confessos comumente dependem (indiretamente) de argumentos utilitários ao atentarem para as más consequências que supostamente se seguiriam de nosso bem-estar oriundo deste [mau] uso de uma ética utilitarista.

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BUDISMO VERSUS UTILITARISMO

Deixando de lado as diferenças metafísicas, o quão perto se encontram os valores fundamentais dos utilitaristas/abolicionistas e dos budistas? Se o sofrimento e sua abolição são centrais para a vida na Terra, as diferenças entre as duas tradições poderiam ser resolvidas a partir de questões concernentes aos meios, não aos fins?

Talvez. Mas essas diferenças são apenas substanciais. A maioria dos budistas contestaria a ideia de que a tecnologia possa oferecer uma rota de fuga da dor da existência terrena. Apesar das várias histórias de sucesso da medicina científica, aparentemente os avanços da tecnologia moderna não foram capazes de deixar os seres humanos mais felizes, em média, do que nossos ancestrais da Savana Africana. De fato, a incidência de casos de depressão clínica, distúrbios de ansiedade, suicídio, abuso de drogas, rupturas conjugais e outros índices “objetivos” demonstram o crescimento da angústia na sociedade capitalista ocidental como um todo. O desempenho da ciência tecnológica até este momento não é encorajador. Os oponentes do utopismo científico prevêem que sua consecução resultará – na melhor das hipóteses – em uma espécie de “Admirável Mundo Novo”.

Os abolicionistas respondem que somente uma biotecnologia iluminada poderia libertar o mundo do sofrimento para sempre. Pois, a menos que os substratos biológicos da desagradabilidade sejam erradicados, o sofrimento continuará sendo preordenado pela bioquímica do cérebro humano. Todos os humanos darwinianos passam por momentos de angústia [“dukkha”] periodicamente. Naturalmente, a sua intensidade e duração podem variar, embora seu fantasma nunca esteja realmente ausente. Ao proporcionar a seus “veículos” a capacidade de sofrer, a aptidão inclusiva de nossos genes em nosso ambiente ancestral é aumentada. Pois uma capacidade hereditária condicionalmente ativada de experienciar todos os tipos de estados desagradáveis foi adaptada geneticamente. Assim sendo, mesmo os budistas mais devotos são capazes de passar por momentos de dor, tristeza e mal-estar durante suas vidas. Um estilo de vida budista e disciplinas meditacionais podem oferecer um alívio paliativo. Ainda assim, sob o jugo do genoma darwiniano, nenhuma forma de busca pelo “Nobre Caminho Óctuplo” será capaz de restabelecer nossos termostatos emocionais, reprojetar nossos perfis de expressão gênica e desmantelar a “esteira hedônica” da vida darwiniana. De acordo com a história evolutiva, as mães primatas que não eram tomadas pela ansiedade “ligavam-se” a suas crias, e por desejarem seu sucesso em vida, deixavam cópias de seus genes, em vez de suas variantes repletas de mal-estar, assim como suas contrapartes não-budistas.

Além disso, considerando-se uma arquitetura neural tradicional, nota-se que pessoas “hiper-dopaminérgicas” movidas pelo desejo, ou seja, pessoas que possuem a maior variedade e intensidade de inclinações, costumam ser as menos infelizes – embora suas vidas ainda possam ser arruinadas por decepções e perdas. Por outro lado, a extinção do desejo experienciada por muitos seres humanos contemporâneos está mais próxima da apatia e do afastamento do que da iluminação – não do esclarecimento e do consequente nirvana, mas em vez disso, de uma condição de melancolia ou anedonia: um vazio, uma espécie de ausência de sentido. Esse não é o tipo de eliminação do desejo que os budistas têm em mente. Ainda assim, não é certo que o budismo ofereça uma solução para a anedonia – a incapacidade de sentir felicidade ou de antecipação da recompensa – característica de muitos depressivos.

Ao olhar para o futuro, pode-se vislumbrar que as novas tecnologias da saúde pós-genômica garantirão alegria, sentido ou motivação ilimitadas – ou quem sabe serenidade. Se assim desejarmos, uma hiper-espiritualidade rica também poderia ser despertada, mesmo naqueles espiritualmente “estéreis”. A inteligência e a expectativa de vida poderiam ser genética e farmacologicamente ampliadas, talvez até mesmo de maneira indefinida; contra-intuitivamente, assim como a compaixão. Futuramente, a engenharia genética permitirá o domínio sob as emoções arcaicas, e eventualmente a criação de novas categorias de experiência espaço-temporal da consciência inteiras, que até então desconhecemos.

De maneira prosaica, mas significante do ponto de vista moral, a revolução reprodutiva de “bebês projetados” nos permitirá escolher quanto sofrimento traremos para esse mundo quando decidirmos qual será a constituição genética de nossos filhos. Os gradientes de bem-estar geneticamente pré-programados poderão ser o futuro de nossos descendentes desde a sua concepção, dependendo somente da configuração que favorecermos. Se assim optarmos, poderemos abolir completamente os desagradáveis poluentes da alma oriundos da vida darwiniana. O dukkha poderá ser relegado ao esquecimento histórico; e substituído por uma era pós-darwiniana de super-saúde mental.

A era da medicina genética amadurecida ainda está décadas à frente, talvez até mais. Os budistas certamente têm o direito de salientar porque o desejo e a ligação com as coisas impermanentes, da maneira como as experienciamos hoje em dia, comumente nos levam a desilusões. Mas quando essas mesmas desilusões tornarem-se geneticamente impossíveis, será finalmente seguro seguir as próprias paixões ilimitadamente. De maneira mais geral, a ausência de desejo é a receita para a estagnação pessoal e social, ao passo que um número muito grande de desejos é a precondição para o dinamismo intelectual e o progresso social.

Contudo, tal domínio sobre nossas emoções atinge a muitos bioconservadores – eles consideram esse controle uma perspectiva assustadora – de forma a evocar imagens de escravidão, em vez de uma ampliação de nossas capacidades. Assim, vale a pena recordarmos a forma como alguns comentadores sociais temeram que a anestesia concedesse aos médicos um poder demasiado sobre seus pacientes. A utilização de anestésicos com vistas a cirurgias indolores supostamente privaria o indivíduo de sua autonomia e da capacidade de agir racionalmente, reduzindo-o a um “mero corpo”. De um ponto de vista contemporâneo, investir em uma casta de médicos quase sacerdotal, com o poder legítimo e exclusivo para permitir – ou negar – o prazer, a partir de medicamentos para o alívio da dor, sem dúvida faz aumentar a margem para abusos de autoridade.

Quaisquer que sejam os riscos de abuso, nossas tecnologias para erradicar a dor são valiosas demais para serem abandonadas, mesmo que essa opção fosse sociologicamente realista. Neste exato momento, a visão de uma vida sem o sofrimento ainda é considerada fantasiosa por muitos não-budistas (e até mesmo budistas). A felicidade vitalícia não parece ser mais provável do que a perspectiva de “analgésicos” efetivos ou de cirurgias indolores que atingiu os nossos antepassados vitorianos. No que diz respeito à grande maioria, estamos tomados pelo profundo sentimento indizível de que “aquilo que sempre foi sempre será”. Tal status quo bias possui profundas raízes culturais. Até mesmo os utilitaristas clássicos podem achar difícil crer que o sofrimento possa ser erradicado num futuro predictível, da mesma forma que a varíola, por exemplo. Ainda assim, é difícil subestimar as ramificações de se reescrever o genoma humano durante o milênio que se desenrola. A abolição dos substratos biológicos do sofrimento promete marcar uma grande descontinuidade no desenvolvimento da vida na Terra. Nossos descendentes melhorados geneticamente poderão considerar uma existência sem o “dukkha” – a abolição do sofrimento – como o fundamento moral de qualquer sociedade civilizada.



English Title: Buddhism and the Conquest of Suffering
Author: David Pearce
Technical Review By: Lauren L. N. Baumhardt (2011)
Translation by: Gabriel Garmendia da Trindade (2011) see too 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 & 8.





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